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quinta-feira, novembro 17, 2011

Esquizofrenia Moral



"O erro da ética até o momento tem sido a crença de que esta só se deve aplicar em relação aos homens." Albert Schweitzer

A relação que os humanos estabeleceram com os animais é, no mínimo, estranha. Enquanto elegemos alguns como nossa companhia e os tratamos como se fossem membros da nossa própria família, enquanto nos maravilhamos com programas de TV e livros sobre os animais selvagens e os seus comportamentos nos seus habitats, e enquanto estudamos e recriamos os comportamentos de animais extintos há milhares de anos, reduzimos a existência de outros, unicamente àquilo que deles poderemos obter.

Os animais que exploramos e dos quais lhes retiramos centenas de produtos e inclusive a própria vida, são unicamente um produto, uma mercadoria:
A vaca é o leite. O porco é o fiambre. A galinha é o ovo.

As únicas vezes que temos acesso a estes animais é quando já se encontram desmanchados, empacotados ou envoltos em papel celofanee expostos nas prateleiras dos supermercados, ou quando nos aparecem à frente dispostos num prato.

Quanto aos animais que gostamos de ver na TV ou em livros nos seus habitats naturais, colocamo-los atrás de grades, ou obrigamo-los a realizarem truques e rotinas para nosso divertimento. E como prova suprema da nossa superioridade caçamo-los e matamo-los quase até á sua extinção.

Quando inclusive falamos em maus tratos e crueldade a animais fazemo-lo de uma forma redutora e selectiva, incluindo, geralmente, somente aqueles que escolhemos para nos estarem mais próximos. O estatuto de animais de companhia, que conferimos aos cães e aos gatos, parece dotá-los da exclusividade no que respeita à nossa preocupação moral e ao desrespeito dos seus direitos e quaisquer abusos dos quais sejam vítimas.

Por vezes esta preocupação é alargada a outra espécies, quando devido ao nosso comportamento quase causamos a sua extinção, ou quando surgem certas campanhas que conseguem atrair alguma atenção e mobilizar parte da opinião pública.

A chacina de focas que todos os anos decorre no Canadá, ou as criticas ao uso de peles e à sua indústria representam alguns exemplos desta conduta incoerente.

Não deixa, no entanto, de ser curioso que a maioria das pessoas que se pronuncia sobre os maus tratos a cães e gatos, sobre a morte das focas ou sobre o uso de peles, se remeta ao silêncio quanto ao tratamento das galinhas e porcos, sobre o abate de vitelas ou leitões ou sobre o uso de cabedal.

O que torna umas práticas condenáveis e outras aceitáveis, e o que coloca alguns animais na nossa esfera de preocupação e consideração moral enquanto remetemos outros à indiferença é contraditória e difícil de compreender, e foi definida pelo escritor e filósofo norte-americano Gary Francione como "esquizofrenia moral".

Apesar de, desde Darwin, se considerar que não existe nenhuma diferença biológica fundamental entre humanos e animais, existe a tendência de demarcar com exactidão tudo o que nos separa das restantes espécies.
As mulheres estão grávidas, as cadelas estão prenhas.
Os humanos têm cara, os animais têm focinho.
Os humanos têm sentimentos, os animais têm instinto.
Quando pretendemos inclusive ofender ou qualificar negativamente alguém é frequente recorrermos a determinadas espécies com um carácter pejorativo:
Quem não prima pela higiene é porco, apesar deste animal em condições naturais ser extremamente limpo;
Quem é pouco inteligente é burro, apesar de estes animais serem bastante inteligentes;
Uma mulher promíscua é apelidada de vaca, apesar de as vacas acasalarem somente uma vez por ano.

A mesma postura é adoptada quando o objectivo é desumanizar:
Hitler apelidava os judeus de ratos;
Os turcos otomanos denominavam os arménios de gado;
Durante a vigência do apartheid na África do Sul as pessoas de raça negra eram chamadas de macacos.
A própria palavra animal é por si só discriminatória, pois utilizamo-la para definir todas as outras espécies, e esquecemo-nos que nós próprios somos animais.

Um chimpanzé é denominado de animal, um camarão é denominado de animal.
Já nós denominamo-nos como humanos, apesar de termos mais semelhanças com um chimpanzé, com o qual compartilhamos 96% do código genético, do que as semelhanças entre um chimpanzé com um camarão.

Esta demarcação extrínseca permite tratar os animais não humanos de uma forma onde qualquer sentido de ética lhes é negado, e enraízam a crença que, o ser humano ao ser "superior" e gozar da "razão", poderá usá-los e explorá-los sem qualquer consideração sobre os seus interesses. Estas duas premissas são suficientes para legitimar qualquer comportamento e justificar o domínio.

Se tivermos em conta que não é indispensável, nem é uma questão de sobrevivência, uma alimentação com produtos derivados de animais para gozarmos de uma boa saúde (muito pelo contrário), que existem centenas de alternativas sintéticas ao couro e às peles, e que existem alternativas a espectáculos que utilizem animais como intervenientes, só para dar alguns exemplos, deveremos pensar porque é que o progresso moral da humanidade não acompanhou, por exemplo, o avanço tecnológico?
A tradição e o hábito não podem servir para justificar todos os nossos comportamentos, nem funcionar como entrave à evolução moral.
Se assim fosse ainda hoje teríamos institucionalizadas práticas que actualmente consideramos retrógradas, apesar de infelizmente ainda serem uma realidade, como a escravatura, trabalho infantil, ou a proibição de voto às mulheres.

Nunca se falou tanto em abuso, exploração e direitos dos animais, mas também nunca na nossa história foram cometidas tantas atrocidades e em números tão elevados contra eles.

Se, por um momento, nos deixássemos de centrar nas diferenças que separam os humanos e animais, veríamos que, no que é verdadeiramente essencial, somos iguais:
Todos procuramos o bem-estar; todos pretendemos evitar o sofrimento; e todos pretendemos a preservação da vida.

Partirmos deste pressuposto de igualdade, ao estabelecermos a nossa relação com os animais, seria provavelmente o maior progresso moral que a humanidade poderia realizar.

Nuno Franco, Sócio nº 9 da UPPA (Editor da Veggix Magazine)



E agora partilho aqui alguns filmes que me fizeram abrir os olhos para a realidade e tornar-me vegetariana:

TERRÁQUEOS (Earthlings) :
http://animal.org.pt/animal_media_player_Earthlings.html

“O Que Tem Realmente no seu Prato?” :

"Free Me" (Libertem-me):

Meat the Truth (Conheça a Verdade):
http://animal.org.pt/animal_media_player_MeatTruth.html

As verdades que as mentiras escondem:

E outros tantos sobre a exploração de animais para vestuário, entretenimento, alimentação, derivados, etc: http://www.tvanimal.org/index.php?lang=pt


:: Outro artigo
Esquizofrenia moral em tempos de calamidade
É desesperador quando bate uma noção da realidade que vivem hoje os animais não humanos do mundo. Não é fácil interceptar essa noção, só acontece às vezes (de fato, parece ser quase tão difícil quanto captar a noção da morte, especificamente aquela em que não se espera que exista nada além).

A situação é tão urgente quanto grave. Cerca de oito vezes mais animais do que a população humana do mundo são continuamente sujeitos a maus tratos, exploração, confinamento, morte - todo ano. A cada minuto, a cada expiração e inspiração que damos, uma quantidade inconcebível de animais sofre horrorosamente... Sangra, é amputado, perde o filho, é castrado a sangue frio, perde a mãe, recebe um ferro quente, padece de uma doença dolorosa, leva porrada, tenta abrir as asas e não consegue, tenta de novo e não consegue, tenta no dia seguinte e novamente não consegue, entra em psicose pela permanente dificuldade de se mexer...

O que é isso que vivemos hoje, agora, senão um momento de calamidade, de emergência? Um mundo em que 50 bilhões de seres sencientes são injustiçados dessa forma não se pode considerar civilizado, não pode sequer se considerar aceitável ou minimamente tolerável. A injustiça que, globalmente, se comete hoje é no mínimo comparável àquela que se infligiu em quase qualquer dado momento da história das civilizações, nas guerras, regimes totalitários, repressivos e de escravidão.


Será que, se existíssemos nos períodos em que tais abusos ocorreram de forma generalizada, algum de nós ficaria confortavelmente sentado na sua cadeira, vivendo como se o mundo fosse justo, ou como se fosse injusto mas você não pudesse fazer nada por isso? Será que dormiríamos em paz, nos omitindo diante (ou até agindo em favor) de uma realidade flagrante que destroça todos os alicerces da nossa ética, compaixão, respeito e bom senso?? Por que, então, conseguimos fazer isso hoje?

Por Deus, será que negaríamos o caráter de calamidade se essa realidade fosse majoritariamente com cachorrinhos dóceis, em vez de com porcos, bois, ovelhas, galinhas e mais galinhas?

Será que a nossa espécie, com a cognição mais sofisticada do mundo, é tão limitada e primitivamente emocional a ponto de não se impor a óbvia constatação de que cães e porcos merecem o mesmo respeito? Que cegueira é essa?!

Peço desculpas se neste texto fujo um pouco à proposta e ao estilo deste blog, mas fui invadido por uma terrível inquietude, uma sensação de estarmos profundamente enganados (até mesmo aqueles que protegem animais) por viver este mundo como se ele não fosse "tão mal", como se não estivéssemos em meio a uma calamidade dramática e inadmissível. Porque acredito que estamos. Este mundo é, sim, mais ou menos "tão mal" quanto o mundo da escravidão humana, o mundo da Segunda Guerra e do holocausto, o Brasil pós golpe de 64 e qualquer outro espaço e tempo em que se tenham cometido tamanhas injustiças, barbaridades e impropérios. Postado por Augusto Libertário em http://argumentoanimal.blogspot.com/2010/06/esquizofrenia-moral-em-tempos-de.html


© Peter Lawson/Eastnews Press Agency Ltd

sexta-feira, outubro 14, 2011

O SACRIFICIO DE ANIMAIS NA RELIGIÃO


A Bíblia ou o Corão ensinam a crueldade?

Fico horrorizado com os holocaustos de dor e sangue que Deus supostamente teria mandado praticar nos tempos idos e que hoje se repetem na tradição muçulmana com base numa história em que Abraão teria sido tentado ou provado para matar seu filho colocado sobre um altar de lenha onde seria degolado com um cutelo e depois queimado, mas que entretanto lhe aparece um Anjo (Gabriel) impedindo-o de cometer esse acto e em vez do filho é sacrificado um cordeiro no seu lugar. (Ver toda a história no capítulo 22 de Génesis, um dos vários livros de Moisés).

Em face disto têm sido sacrificados todos os anos cerca de 700.000 ou 800.000 animais inocentes (carneiros ou bodes) que são degolados e esfolados numa matança cruel nos lugares onde se juntam mais de dois milhões de muçulmanos na sua Peregrinação a Meca (a “hadj”), cumprindo assim uma tradição que se repete em nome duma crença que até está em contradição com as leis de Deus (Alá ou Jeová) num dos seus Mandamentos que diz: “NÃO MATARÁS”!

Não entendo porque razão se comete então uma chacina com tanto derramamento de sangue de milhares de animais sacrificados à Divindade que no meu entender abomina tudo isto e não se agrada de tais actos pagãos que agradam sim a Satã ou às entidades vampíricas das trevas e não da Luz.

Doutro modo, os próprios cristãos deveriam reflectir também nas palavras de Jesus Cristo que teria dito no seu tempo em relação aos rituais e sacrifícios de animais, o seguinte:

Vim para abolir as festas sangrentas e os sacrifícios, e se não cessais de sacrificar e comer carne e sangue dos animais, a ira de Deus não terminará de persegui-los, como também perseguiu a vossos antepassados no deserto, que se dedicaram a comer carne e que foram eliminados por epidemias e pestes...” (Isto está escrito no capitulo 21 do “Evangelho dos Doze Santos”, um dos Manuscritos encontrados nas cavernas de Qumram junto ao Mar Morto). Em face disto o Papa devia parar de comer carne e instruir os cristãos a fazerem o mesmo... Mas isto é outra conversa!

Por fim, não creio que o Profeta Maomé tenha ordenado os actos de crueldade que se praticam hoje numa Religião de Paz (o Islão) que deveria acabar sim com toda a mortandade de sacrifícios de animais que só o grande negócio dos criadores de carneiros e ovelhas justifica, nada mais. Felizmente já existem muitas vozes discordantes de muçulmanos que são mais favoráveis à oferta de dinheiro em vez da matança dos carneiros. Aliás, a mutilação ou interferência no corpo de um animal vivo que lhe cause dor ou deformação contraria os princípios islâmicos, diz o imã Al-Hafiz Basheer Ahmad Masri, afirmando mesmo que Maomé teria dito:

“Aquele que tem piedade (até) para com um pardal e poupa sua vida, Alá ser-lhe-á misericordioso no dia do julgamento” ...

Uma boa acção feita a um animal é tão meritória quanto uma boa acção feita a um ser humano, enquanto um acto de crueldade a um animal é tão ruim quanto um acto de crueldade para um ser humano”.


Afinal, Deus deu a vida a todas as criaturas de igual modo para que sejam respeitadas e não chacinadas ou vilipendiadas pelos humanos, digo e penso eu. Mas infelizmente, milhões de animais vivem e sofrem em silêncio tanta dor e agressão do ser ‘racional e ‘inteligente’ que se tornou na pior espécie de predadores da Terra que comete tanto mal e vive de forma incoerente.

Fica aqui mais esta dissertação,

Pausa para reflexão!

Rui Palmela

domingo, outubro 09, 2011

Vegetarianos há mais de um século




A primeira associação nasceu há cem anos no Porto. Amanhã é dia mundial do vegetarianismo, um regime com cada vez mais adeptos
Gabriela Oliveira*

Desengane-se quem pensa que só há poucos anos os portugueses descobriram o regime vegetariano, o estilo de vida vegano ou fruti-crudívero. Em plena revolução da República, também se discutia dietética e ética à mesa, argumentava-se a favor de uma alimentação baseada em cereais, frutas e legumes, que banisse do prato a carne e o peixe. Por influência de movimentos vegetarianos que surgiam em vários países da Europa, também em Portugal, por volta de 1908, começava a 'revolução' vegetariana.
Pinhões, castanhas, frutas secas, aveia, farinhas integrais, pão de glúten, vinho sem álcool, azeite sem acidez - a lista de alimentos recomendados para uma alimentação sã era extensa. Já na altura se dava importância aos sumos naturais e se comercializavam «marmitas» para cozer legumes a vapor (as famosas panelas Hygie).

O grande impulsionador do vegetarianismo e naturismo foi o médico Amílcar de Sousa, que vivia no Porto e conseguiu mobilizar outros médicos e personalidades da burguesia portuense para «o estilo de vida natural e saudável». Em 1911 foi fundada a Sociedade Vegetariana de Portugal pelo comité que publicava a revista O VegetarianoUma publicação mensal que chegava a vários pontos do país e tinha assinantes no Brasil e nas colónias, especialmente em Angola e Cabo Verde.  A associação  chegou a registar mais de três mil sócios, corria o ano de 1914.



Hotel Vegetariano

Em 1913 abria com alarido o Grande Hotel Frutí-Vegetariano, a dois passos da estação de São Bento no Porto! Uma pensão naturista, situada no número 26 da Rua dos Caldeireiros, que ocupava quatro pisos e chamava a si o mérito de ser «a primeira casa fundadora da cozinha vegetariana» e o único estabelecimento do género em Portugal. O hotel, equipado com «uma sala de jantar decorada com gosto e belas paizagens», recebia «comensais» com mensalidades a partir de «13$00 reis», anunciava O Vegetariano.

Na mesma altura surgia em Lisboa, no número 100 da avenida da Liberdade, a Maison Vegétarienne, um espaço que aplicava os princípios do vegetarianismo. No local onde se serviam refeições vegetarianas, faziam-se consultas naturistas e vendiam-se produtos dietéticos. Abriam e fechavam pequenos estabelecimentos ao sabor da procura. Discutia-se o poder curativo da dieta vegetariana e, em especial, do regime frugívoro – que defendia o consumo exclusivo de frutas frescas e secas – como uma forma de purificação do organismo e de causar o mínimo impacto na natureza.
Em eventos sociais, muitos não abdicavam do regime naturista. O casamento entre o editor da revista O Vegetariano e Julieta Ribeiro terá sido a primeira boda vegetariana do país, em 1914. O enlace foi divulgado precisamente por oferecer aos convidados um menu de frutos e não de «despojos cadavéricos».

A revista publicava fotografias de pessoas que tinham aderido ao vegetarianismo, até mesmo de crianças. Ensinava a fazer sementeiras, a cultivar frutos e a tirar o máximo de proveito dos alimentos crus na alimentação. Num anúncio pitoresco o médico Amílcar de Sousa aparece em cuecas a trepar a uma árvore com o slogan: «Só diz que o Bacalhau é bom, quem nunca provou destes frutos!».

Foi um sucesso o primeiro livro de receitas vegetarianas português, que Julieta Ribeiro publicou em 1916. Culinária Vegetariana, Vegetalina e Menus Frugívoros (editado pela Sociedade Vegetariana) esgotou e chegou à quarta edição! Antes dessa data, apenas se conhece um livro, O Cozinheiro Prático, que tinha uma secção de receitas vegetarianas traduzidas.



Comida de Grilo

Será ético comer animais? Provocar-lhes a morte? O debate sobre o vegetarianismo era intenso nos círculos intelectuais do início do século XX. O escritor Jaime de Magalhães Lima era um dos defensores acérrimos e desfiava argumentos de peso, citando grandes filósofos vegetarianos da antiguidade e a tradição milenar do vegetarianismo no oriente. Também o  poeta e escritor Ângelo Jorge se destacou ao escrever a novela naturista Irmânia. No Alentejo, o anarquista e sindicalista António Gonçalves Correia, conhecido pelas suas longas barbas e cabeleira revolta, comprava animais para os libertar. O sofrimento animal era um assunto polémico. Discutia-se o naturismo ao serão - em casas de chá, de frutas e de leitura - como hoje se discutem os assuntos do dia nos media ou na internet.

No filme O Pai Tirano, de 1941, há uma passagem que brinca com um dos personagens que «só come comida de grilo», e este responde que o grilo «é um bicho sábio, pois alimentando-se exclusivamente de vegetais, segue a lei sã da natureza». Era Eliezer Kamenesky, que participou também nos filmes A Revolução de Maio e O Pátio das Cantigas. Viajou pelo mundo e enchia salas com as suas conferências em defesa do naturismo e vegetarianismo. Fixou-se em Lisboa nos anos vinte, privando com Fernando Pessoa que chegou a prefaciar um dos seus livros. 
  
O interesse pelo vegetarianismo tinha esmorecido mas ressurgiu em força nos anos setenta. No  virar do milénio deu-se o boom das lojas dietéticas e dos restaurantes vegetarianos. Serão trinta mil os vegetarianos em Portugal, segundo um inquérito.

 Tirar a carne do prato não basta. É preciso que outros alimentos supram as carências proteícas, como a soja, tofu, seitan e as diversas leguminosas. À tónica da alimentação saudável, vieram juntar-se as razões ecológicas - tema escolhido para edição deste ano da semana vegetariana, assinalada em simultâneo em vários países.

* Com Nuno Metello

terça-feira, setembro 13, 2011

‘A pior forma de desrespeitar uma criatura é coisificá-la como algo comestível’


28/10/2010

“A ética animal tem que conseguir se alçar como um campo de reflexão legítimo, constituir-se dentro e fora da academia”, é o que aponta o professor Carlos Naconecy na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. Ele fala sobre os principais conflitos que o conceito de ética animal vive atualmente e sobre como a bioética pode ser compreendida a partir da relação homem/animal. “Não há diferenças moralmente relevantes entre, digamos, três tipos de mamíferos, cães, ratos e porcos. Mas, mesmo assim, amamos o primeiro, odiamos o segundo e comemos o terceiro”, explica o professor aponta que isso mostra a segregação preconceituosa que há na diferenciação animal que se pratica.

Carlos Naconecy é filósofo graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fez doutorado também em Filosofia pela PUCRS. Foi pesquisador visitante em Ética Animal na Universidade de Cambridge (UK) e hoje é membro do Oxford Centre for Animal Ethics e do corpo editorial do Journal of Animal Ethics. É autor do livro Ética & Animais (Porto Alegre: Edipurs, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como podemos entender o conceito de ética animal?

Carlos Naconecy – A expressão "ética animal" deve ser entendida como uma ética, no sentido de reflexão filosófica, a respeito do tratamento dos animais (não humanos) por parte dos humanos. Nessa acepção, a ética animal se constitui como um dos ramos da Ética Aplicada, área da Filosofia que se debruça sobre as questões concretas que se impõem a nós neste momento da civilização.

IHU On-Line – Quais são os principais conflitos que a ética animal vive hoje?

Carlos Naconecy – Pensando particularmente no contexto brasileiro, eu diria, em primeiro lugar, que a ética animal tem que conseguir se alçar como um campo de reflexão legítimo, constituir-se dentro e fora da academia, ou seja, mostrar que há algo a ser dito e que merece ser ouvido. Isso significa levar os animais moralmente a sério, tomá-los em consideração nas decisões privadas e públicas, enquanto sujeitos, em vez de meros objetos – assim como fazemos com outros seres humanos. 

Atualmente, temos "animais de (panela)" ou "animais para (companhia, diversão, experimentação, etc.)", mas não animais como sujeitos morais, isto é, que demandam nosso respeito. Esse imperativo ainda está muito distante da consciência moral ordinária e cotidiana. Na maior parte das vezes, os argumentos e reflexões em prol dos animais são descartados automaticamente e, quando não o são, o homem médio os classifica como passionais, sentimentalistas, fanáticos, idiossincráticos, etc.

O ponto fundamental é reconhecer a alteridade dos animais, cuja reificação (transformação do animal em coisa), instrumentalização (utilização do animal como meio) ou antropomorfização (transfiguração da alteridade e especificidade animal) devem ser postas à luz de um devido crivo crítico. Em suma, em resposta à sua pergunta, o principal desafio da ética animal atualmente é conquistar seu espaço como área de reflexão moral genuína e relevante, ou seja, alçar seu estatuto filosófico. 

IHU On-Line – A zooantropologia é uma prática que já existe no Brasil?

Carlos Naconecy – A zooantropologia se debruça sobre a relação humano-animal, no encontro do animal humano com outro animal não humano, envolvendo conteúdos da antropologia, zoologia, etologia e psicologia. A domesticação e o papel dos pets são alguns dos seus objetos de estudo. Não acompanho de perto a pesquisa nessa área no Brasil, mas imagino que a zooantropologia esteja ainda muito incipiente no nosso país, se não inexistente. O que temos são programas de Zootecnia e Comportamento Animal, e algumas pesquisas com terapia com uso de animais, e é só. 

IHU On-Line – O que a bioética pode revelar sobre a relação homem/animal?

Carlos Naconecy – A função das éticas (zoo, bio ou outra qualquer) não é revelar ou descrever as relações, mas, antes, a de avaliar tais relações. Diferentemente do que a etimologia do termo indica, bioética é interpretada usualmente como ética médica, que se situa na relação entre médico e paciente, envolvendo questões como a eutanásia, aborto, suicídio etc. Entretanto, no seu sentido mais próprio, trata-se da ética da relação entre o humano e outros seres vivos. Ora, a categoria do vivo é mais ampla que a categoria do animal. Portanto, as questões de fundo da ética animal se inserem nas reflexões pertinentes ao valor intrínseco da vida e do viver.

IHU On-Line – Veneramos e mimamos alguns animais, enquanto torturamos e destruímos outros. O que isso nos diz sobre a ética do homem?

Carlos Naconecy – Isso nos diz que o pensamento de senso comum é preconceituosamente discriminatório e moralmente inconsistente, com raízes culturais. Por exemplo, não há diferenças moralmente relevantes entre, digamos, três tipos de mamíferos, cães, ratos e porcos. Mas, mesmo assim, amamos o primeiro, odiamos o segundo e comemos o terceiro.
Essa segregação preconceituosa varia entre as diferentes culturas e as diversas sociedades. Esse fato indica o quão arbitrária e inconsistente é a razão moral humana quando se volta à categorização do "outro", de modo geral, e dos outros membros do reino animalia, em particular. 

IHU On-Line – A academia hoje trata da questão da ética animal? De que forma?

Carlos Naconecy – Vou me permitir citar um trecho do livro "Ética & Animais", que descreve exatamente esse ponto:
"A questão dos animais se apresenta como um problema aberto para a Filosofia. E quem escreve sobre animais numa área tão conservadora quanto a Filosofia corre o risco de parecer ridículo. De fato, falar hoje de uma ética para os animais é ainda visto com certa suspeição e até desprezo pelos acadêmicos. É bem verdade que alguns pensadores se ocuparam isoladamente com esse tema nos séculos anteriores. Também é muito provável que, ao longo da história do pensamento ocidental, vários filósofos deixaram de escrever sobre suas posições teóricas quanto ao status dos animais, a fim de evitar se sujeitarem a tal exposição constrangedora. Isso hoje ainda vale entre nós em certa medida. Felizmente, nossa sociedade hoje está mais preparada para considerar essa ideia. Ao longo dos últimos dois séculos, a atenção social quanto aos limites éticos da conduta humana em relação aos animais se restringiu a uma ética minimalista, que se limitava meramente a proibir a crueldade intencional. Mais recentemente, se percebeu que a maior parte do sofrimento animal pelas mãos humanas não é consequência de crueldade, mas da utilização normal e socialmente aceita dos animais. Constatou-se que a imensa magnitude da miséria animal não deriva de motivos sádicos, mas de razões nobres e altos ideais, como, por exemplo, a eficiência naobtenção de alimentos. Somente nas últimas três décadas os filósofos começaram a tentar estender sistematicamente seus conceitos ao domínio não humano. O que pode surpreender agora não é o fato de que um grande número de filósofos esteja reivindicando uma ética para os animais, mas, sim, o fato de que tais reivindicações ainda pareçam absurdas para muitos outros".

IHU On-Line – Que limite deve ser imposto à experimentação com animais?

Carlos Naconecy – Com o passar do tempo, a sensibilidade de uma sociedade pode considerar como eticamente obsoleta ou insuficiente uma prática que antes era vista como moralmente aceitável. O modo livre como a ciência e a tecnologia tratavam os animais, por exemplo, há algumas décadas atrás, não era considerado como moralmente problemático. As decisões sobre o uso de animais na ciência eram, afinal, um assunto de ciência, de cientistas para cientistas. Isso mudou. 

Hoje, os usos e abusos da experimentação com animais são alvo de crítica por parte da sociedade civil. Essa contestação, envolvendo público e instituições, pede uma substituição do uso dos animais nos procedimentos. E a possibilidade de um estudante de anatomia evocar uma objeção de consciência nessa matéria não suscita mais a noção de tolice ou disparate. As realidades mudaram, portanto. 

Enquanto isso, os animais são utilizados aos milhões anualmente na pesquisa biomédica, em testes de segurança de produtos comerciais e com propósitos educacionais. (Segundo a British Union for the Abolition of Vivisection, 61% dos experimentos em animais são realizados sem qualquer anestesia!) A ideia que está por trás das justificativas oferecidas para a experimentação – a propósito, muito conveniente para nós, humanos – é que um animal é suficientemente semelhante a um humano em alguns aspectos (exatamente aqueles que justificam a experimentação), mas não em outros (os que exigiriam nosso respeito moral por ele).

Além do mais, pratica-se uma espécie de terrorismo científico, propagando-se a ideia de que "se a experimentação com animais for banida, as pessoas começarão a morrer!" Mas, segundo oStatistics of Scientific Procedures on Living Animals, do Reino Unido, de 2007, apenas 21% dos experimentos com animais são para testar novos produtos médicos. Não estamos falando, portanto, de salvar vidas humanas, mas sim de esbanjar a vida dos animais por motivos fúteis ou inúteis.

Há que se atentar ainda ao fato de que 99% dos animais que são retalhados não o são para mostrar a circulação sanguínea nas escolas, nem para observar o efeito de uma substância química no seu organismo – 99% dos animais sobre o nosso planeta são cortados no açougue, não no laboratório. A pior forma de desrespeitar uma criatura é “coisificá-la” como algo comestível. A justificação ética a favor da experimentação com um animal, com todas as suas fragilidades, ainda é mais forte que a justificação em se alimentar desse mesmo animal. O ponto aqui é muito simples: se eu posso matar para comer, por que eu não poderia matar para testar, ensinar e conhecer? A obtenção de conhecimento biomédico é supostamente mais importante, em termos morais, que a obtenção de um prazer culinário ou degustativo. Quero dizer que, se você realmente se preocupa com os animais de laboratório, você deve também se preocupar – e se preocupar antes – com o destino dos animais de panela.

Entrevista Carlos Naconecy: Ética Animal / Vegetarianismo - 1ª Parte


Entrevista Carlos Naconecy: Ética Animal / Vegetarianismo - 2ª Parte

segunda-feira, agosto 29, 2011

DEFENSORES DOS ANIMAIS; QUEM SÃO E O QUE FAZEM

No passado, ser um defensor dos animais era tido como uma pessoa careta ou esquisita. Dava a impressão que era uma pessoa que não gostava de gente. Tudo isso mudou. Hoje os defensores estão em todas as camadas sociais e inclusive entre os intelectuais e artistas.

Na verdade há vários tipos de defensores, desde os mais simples que apenas cuidam bem dos animais e se preocupam por eles, até os extremamente radicais que arriscam suas vidas em defesa dos animais como, por exemplo, o grupo Igualdad animal da Espanha, o Greenpece, o Sea Shepherd e vários outros. Entretanto todos tem algo em comum, o grande amor pelos animais.

Os defensores mais simples em geral são carnívoros, ainda não perceberam que não combina bem defender um animal enquanto come outros. Mas apesar de tudo, já é um início. Com o tempo e dependendo de várias circunstâncias e por diversos caminhos alguns acabam percebendo que é uma incoerência defender animais enquanto promove sua matança comprando carne. E assim, um dia tomam a grande decisão, não se deve comer carne de quem se defende.

Há um grupo de defensores intermediários. São pessoas que às vezes não tem muito tempo para se dedicar a causa animal, assim, são vegetarianos, tratam bem os animais, lêem sobre os temas de defesa dos animais, mas não tem muito como agir para defendê-los.

Há também um grupo totalmente voltado para a defesa dos animais. Passam o maior tempo possível conforme suas vidas lhes permite, dedicando-se aos animais. Essa dedicação acontece das mais diferentes maneiras. Alguns são bem práticos, saem às ruas para ajudar os animais, fazem regate, denunciam, cuidam, montam ONGs para abrigar animais e muitas outras atividades práticas. Essas pessoas são as que mais sofrem em suas tarefas em defesa dos animais, pois só encontram barreiras daquelas pessoas que não entendem o sentido de defender os animais. Em muitos casos, conseguem até inimigos.

Outro grupo cada vez mais importante entre os defensores é um grupo mais intelectual, usam seus conhecimentos técnicos, artísticos ou de formação para ajudar os animais. Por exemplo, há nesse grupo veterinários que poderiam estar comodamente apenas exercendo suas profissões, mas vão mais além, dedicam-se ao salvamento dos animais. Há pessoas com formação que envolve ética, direito, etc. Que usam essas ferramentas para ajudar os animais, escrevendo, divulgando, denunciando e tudo mais. Há também o grupo dos artistas. Usam de seu carisma e de sua arte em defesa dos animais. Aliás, este é o grupo que mais tem crescido nos últimos anos.


Cantores, músicos, atores e muitos outros aderem à causa animal e usam de sua influência junta ao público para passar uma mensagem positiva contra a exploração dos animais. A maior ONG do mundo, o peta, há muito descobriu que o melhor meio para passar uma mensagem em defesa dos animais ao grande público é justamente usando pessoas queridas e até adoradas pelo público, ou seja, os artistas. E neste aspecto tem obtido enorme sucesso, motivando milhões de pessoas a cada ano a um melhor entendimento sobre os animais.


Muitas pessoas passam a defender os animais apenas porque seus ídolos assim o fazem, outras, porque acham que se um grande astro fala a favor de uma causa, vale a pena pesquisar um pouco e ver do que se trata. De toda maneira acaba aderindo à causa, pois não há quem não pesquisa sobre direitos e defesa dos animais que logo não se convença de que deve mudar de atitude radicalmente e passar a defender os animais.

A defesa dos animais é uma causa lógica. Não há como fugir. Basta ter um mínimo de inteligência e boa vontade. Em meia hora de pesquisa séria e reflexão qualquer pessoa inteligente se dá conta do grande erro que vinha cometendo durante toda sua vida, o erro de considerar os animais como meros objetos, como produtos ou alimentos.


Os vegetarianos e veganos.

Um grupo que pode ser dividido em duas partes, aqueles que primeiro se tornaram defensores dos animais e em seguida perceberam que seria uma verdadeira hipocrisia defende-los e ao mesmo tempo come-los e, portanto a solução seria ser vegetariano em defesa dos animais, e um outro grupo que primeiro se tornou vegetariano pensando em si, ou seja, um corpo saudável, longe das doenças, longevidade, etc. Mas que depois vieram a descobrir que vegetarianismo tem tudo a ver com a defesa dos animais, e a partir de então passaram a se dedicar a causa dos animais.

Os defensores dos animais, apesar da modernidade dos meios que usam e da evolução da ética, ainda encontram muitas barreiras e inimigos. A principal delas é a tradição. Alguém no passado inventou determinado procedimento, como por exemplo, o famoso churrasco, ou qualquer outra coisa do gênero que tenha a ver com os animais. A partir daí isso vai passando de geração para geração e ninguém tem coragem de dar um basta.


Assim, sobre para os defensores dos animais, a árdua tarefa de dar um basta em muitas tradições, e claro que isso exige muita luta, é quebrar toda uma corrente, todo um pensamento enraizado nas pessoas, passado de pai para filho. Dizer a alguém que deve abolir o churrasco ou a tourada ou a pescaria em defesa dos animais não é tarefa fácil, o defensor não está enfrentando apenas uma pessoa, mas milhares que praticam a mesma atividade e até as gerações passadas que impingiram tais tradições.

Ainda outro inimigo de peso que o defensor enfrenta é a indústria animal. A indústria não usa apenas a parte material dos animais como a carne, a pele e outros produtos. Usa de uma ferramenta muito difícil de ser combatida, usa a propaganda a fazer de seus produtos. Faz com que os produtos derivados de animais pareçam indispensáveis e maravilhosos. Causa nas pessoas a impressão de que é totalmente impossível viver sem eles. Ao mesmo tempo, essa indústria que usa os animais é rica e poderosa possuindo meios para combater os defensores.

Ultimamente o que muito tem ajudado as pessoas que defendem os animais são os meios modernos de comunicação, sobretudo a internet. Grandes exemplos podemos ver recentemente quando milhares de pessoas se uniram através de e-mails, sites de relacionamentos, blogs, sites e tudo o mais para tentar dar um basta na poderosa indústria que usa peles de animais. Os resultados foram excelentes, essas pessoas unidas conseguiram dobrar as poderosas marcas que usam peles, fazendo-as voltar atrás, dar esclarecimentos e até pedir desculpas.

Assim, as grandes ferramentas modernas para quem pretende defender os animais são duas, os meios principalmente com o uso da internet e a união. Hoje, um defensor isolado não consegue nada. A solução é a união. Assim, aqui recomendamos que entre para algum grupo em defesa dos animais, acompanhe os sites, blogs, e páginas dedicadas a estes temas.

Leonardo Bezerra

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Vencedor do Tour de France acusa carne de má qualidade por possível doping




O espanhol Alberto Contrador, tri-campeão do Tour de France, acusa uma carne de má qualidade por possível doping. Ele alega ter consumido um bife contaminado por Clenbuterol, uma substância às vezes aplicada ao gado para estimular seu crescimento e também para tratamento de asma, quando alguns atletas fazem uso da droga como estimulante.

"É um caso de contaminação de comida em que eu sou a vítima", disse Contrador em entrevista ao Wall Street Journal. Ele disse a um programa de rádio que pessoas que comeram com ele também reclamaram da qualidade da carne, que foi trazida da Espanha pela equipe dele.

Se for constatado que o ciclista fez uso de substância ilegal, ele poderá perder seu título de vencer de 2010 no Tour de France e ser banido do esporte por 2 anos. Entretanto, há evidências de que Contrador e outras pessoas podem ser vítimas dessa contaminação.

Em 1991, a Food and Drug Administration (FDA) alertou que a droga, normalmente em posse de veterinários, estava sendo usada para se conseguir certos benefícios nos animais. A FDA considerou que resíduos de Clenbuterol podem causar mau funcionamento do coração e pulmão nas pessoas que comerem carne contaminadas pela substância.

Vários casos de contaminação deste tipo foram diagnosticados na Europa. Na Espanha, onde Contrador consumiu a carne, o uso do Clenbuterol é bastande controverso. Em 1990, cerca de 135 pessoas que consumiram carne contaminada pela substância foram hospitalizadas com sintomas de taquicardia, espasmos musculares, dor de cabeça, náusea e febre.

O desafio de dispensar a carne e se entregar ao vegetarianismo

Para aderir, o segredo está na disciplina e na busca dos nutrientes necessários.

Novo Hamburgo - Seja por motivos religiosos, pela busca de uma vida mais saudável ou pela preservação da fauna, muita gente tem deixado de se alimentar com produtos de origem animal – leia-se carne vermelha, de aves, peixes e seus derivados. Os vegetarianos se abstém apenas do consumo de carnes enquanto que os veganos são conhecidos por excluírem de sua rotina também os laticínios, ovos, mel, gelatinas e artigos feitos em couro.

Há casos como o do consultor Luiz Jacintho, que segue a dieta vegetariana há 50 anos, numa experiência que, segundo ele, tem dado certo. Mas para repetir esse exemplo bem sucedido é preciso tomar alguns cuidados. A nutricionista Mônica Schneider alerta sobre a necessidade de uma alimentação equilibrada. "O ser humano precisa de proteínas, carboidratos e gorduras na devida proporção à sua faixa etária", explica. Conforme Mônica, um adulto saudável que deseja adotar o vegetarianismo deve ser orientado sobre as substituições necessárias para suprir a ausência dos nutrientes contidos nos alimentos de origem animal.

NUTRIENTES
A nutricionista Ana Harb salienta que adeptos do vegetarianismo podem, de fato, conquistar benefícios para a saúde. "Eles têm menor nível de colesterol, menores taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares, menor índice de obesidade, menor incidência de alcoolismo, constipação, câncer de pulmão e diabetes", afirma. E ela acrescenta que uma dieta bem planejada pode suprir a maioria dos minerais, vitaminas, carboidratos, lipídios e proteínas exigidos pelo organismo.

Porém, Ana também observa que é preciso tomar cuidado, pois os vegetarianos não abdicam apenas de comer carne. Eles também abrem mão de nutrientes importantes e, por este motivo, devem estar atentos à quantidade de proteínas e calorias ingeridas diariamente, evitando problemas como desnutrição e anemia. "Quando a dieta não é balanceada e a alimentação é muito restrita, pode ocorrer o surgimento de deficiências nutricionais", explica.
Antes das mudanças alimentares é preciso buscar orientação. A dieta vegetariana não é recomendada, por exemplo, para crianças e adolescentes, porque nessa idade a fisiologia encontra-se em desenvolvimento. "Se houver a real necessidade desta conduta alimentar, é interessante que a família seja acompanhada por um profissional competente, que irá indicar as devidas substituições e irá monitorar os níveis sanguíneos e a quantidade de ácido fólico e vitamina B12", conclui Mônica.

Cinco décadas

Há 55 anos, o consultor Luiz Jacintho (foto) pegou emprestado do amigo, o artista plástico Ernesto Frederico Scheffel, um livro sobre alimentação naturalista. Os argumentos do autor, um médico italiano, fizeram com que Jacintho refletisse sobre seus hábitos alimentares. "O doutor comparava carnívoros e herbívoros. Os carnívoros têm presas para rasgar a carne e começar a digestão, os herbívoros não", explica.

Conforme Scheffel, as leituras influenciaram Luiz Jacintho. "Eu entro como ponte, porque emprestei o livro ao Luiz. Como, na época, eu almoçava na casa do estudante do Rio de Janeiro, não tinha como seguir a dieta. Devo dizer que nós todos deveríamos ser preparados nesse campo", argumenta Scheffel que, mesmo não seguindo a dieta vegetariana, valoriza uma alimentação saudável.

Depois de ler a obra, Jacintho ficou predisposto a se tornar um vegetariano. "Todos me diziam que o médico italiano e eu estávamos loucos. Falavam que não era possível e que ninguém poderia viver sem carne", lembra. Mas foi nesse momento que Luiz Jacintho conheceu um vegetariano de Novo Hamburgo. "Conversei com esse senhor, que era funcionário dos Correios, e ele me disse que não ingeria carnes há anos", comenta.

Mas foi em um restaurante que o consultor decidiu abandonar de vez a carne. "Pedi um bife a pé. Quando trouxeram o prato, cortei a carne, olhei, coloquei de lado e disse para a minha esposa: a partir de agora, vou até o fim com a experiência", conta.

A decisão completará 50 anos na terça-feira, 15. Neste dia, Jacintho pretende reunir 50 amigos para homenageá-los e comemorar a data. Aos 83 anos de idade, o consultor afirma que a saúde está em dia. "Acredito que só tenha ganhado com essa decisão", diz.

Luiz Jacintho excluiu das refeições somente carnes. A alimentação balanceada faz parte da rotina de Jacintho. No café da manhã, ele ingere iogurtes, frutas e fibras. "Não como nada que voa, nada que nada e nada que anda", finaliza.

O segredo

O segredo dos vegetarianos está em alcançar a quantidade de nutrientes que o corpo exige, sem a ingestão de carnes, através de combinações de inúmeras fontes. Por isso, após a adoção da dieta, o ideal é fazer a compensação dos alimentos que foram excluídos das refeições. Essa substituição deve contemplar o equilíbrio do plano alimentar. Leguminosas, cereais, frutas, legumes e laticínios ajudam neste reparo.

"Caso a dieta não inclua leite e seus derivados, o ideal é ingerir vários tipos de legumes verdes, como brócolis, couves, espinafre, de modo a incluir alimentos que são fontes de cálcio e ferro na alimentação diária", explica a nutricionista Ana Harb.

Enquanto a dieta ovolactovegetariana, que permite a ingestão de ovos e derivados do leite, pode ser adotada sem risco significativo, uma dieta vegetariana radical apresenta ameaças de deficiência nutricional. "Torna-se essencial uma monitorização rigorosa e a correção de qualquer insuficiência, sempre com o acompanhamento de um especialista", conclui Ana.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Dietas restritivas, como o vegetarianismo, dividem especialistas



Carolina Vicentin


George Guimarães - (Arquivo Pessoal )
George Guimarães
Os chefs simpáticos aos veganismo já conseguiram provar que pratos saborosos podem ser elaborados sem que sejam utilizados produtos de origem animal. No entanto, a adoção de uma dieta vegana ainda divide a opinião de especialistas.

Segundo o endocrinologista Márcio Mancini, há vitaminas e minerais abundantes nas carnes  que não são encontrados em quantidade suficiente nos vegetais. Por isso, é muito comum a necessidade de suplementação em alimentações restritivas. “A falta de vitamina B12 pode causar disfunções neurais e até mesmo quadros de demência”, afirma. Mancini, que é presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), acrescenta que os vegetais que possuem cálcio apresentam baixa disponibilidade e quantidade do mineral.

Mesmo não aconselhando a dieta vegana, o médico afirma que a alimentação pobre em gordura saturada pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares. No entanto, ele ressalta que a falta de vitaminas existentes em carnes e derivados pode levar a problemas bem mais sérios. “A falta de ferro pode favorecer o desenvolvimento de anemia”, atenta.

Em opinião contrária, o nutricionista George Guimarães, vegano há 16 anos, acredita que, por ser mais rica em fibras e substâncias protetoras (fitoquímicos) e mais pobre em gordura saturada e isenta de colesterol, a alimentação estritamente vegetariana tem importante papel na prevenção de doenças crônicas e degenerativas. “Também traz resultados mais imediatos, como a melhora na disposição física, na saúde da pele e em alguns problemas de saúde como alergias respiratórias”, defende.

De acordo com George, os aspectos negativos do veganismo são atribuídos a erros de planejamento da dieta e não a uma característica intrínseca da dieta. Ele explica que as leguminosas, como feijões e lentilha, são boas fontes vegetais de proteínas, assim como as oleaginosas, caso do girassol e do gergelim. “Os cereais integrais colaboram, completando o perfil de aminoácidos encontrados nesses alimentos”, afirma. Para ele, a informação de que o corpo necessita de proteína animal é um mito. “O organismo precisa de aminoácidos, que são as frações que compõem as proteínas. Todos os aminoácidos essenciais à nutrição humana podem ser obtidos de fontes vegetais”, informa.

O estatístico Rafael Souza, 23 anos, optou pelo caminho vegano há quatro anos. “É possível viver sem explorar os animais. Torturar um bicho apenas por ele ser de espécie diferente não é legal”, diz. Ele lembra que gostava de carne, mas que atualmente não sente falta, pois apenas mudou a matéria-prima das receitas preferidas. “Como hambúrguer, cachorro-quente e pizza, porém tudo de soja”, ilustra. Rafael recorda que quando decidiu mudar de hábito, sua mãe achou uma loucura, mas até ela tornou-se adepta de algumas regras. “Ela não usa mais cosméticos que foram testados em animais”, comemora o jovem. (RR)

SEM POSIÇÃO OFICIAL
O Correio procurou o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) para saber a opinião das entidades sobre a dieta vegana. Ambas não quiserem se posicionar. 

No caso da Abran, a justificativa foi a de que o movimento veganismo não é uma ciência e sim uma ideologia, e, portanto, não cabe aos profissionais discorrerem sobre o tema. Já o CFM deixou o posicionamento a cargo de cada médico.


CARA A CARA

George Guimarães,

nutricionista

“Uma dieta baseada exclusivamente em alimentos de origem vegetal não é apenas viável, mas é também mais saudável para o corpo. O veganismo é a mudança mais poderosa que uma pessoa pode fazer nos seus hábitos diários para melhorar a saúde e preservar o meio ambiente.”

Márcio Mancini - (Carol Croccia/Divulgação )
Márcio Mancini
Márcio Mancini, 
endocrinologista

“Há vitaminas e minerais dos quais as carnes são ricas e os vegetais, pobres. O ferro, a vitamina B12 e o cálcio, por exemplo, estão presentes no leite. Se a pessoa não ingerir essas fontes, não conseguirá suprir tudo o que precisa com os vegetais.”

Fique por dentro do movimento vegano

Filmes
Título: Não Matarás – os animais e os homens nos bastidores da Ciência
De: Denise Gonçalves
Sinopse: O filme aborda a vivissecção, prática que utiliza animais
vivos para experimentos cinetíficos e laboratoriais.

Título: A carne é fraca
De: Instituto Nina Rosa
Sinopse: O documentário mostra a trajetória da carne ate chegar à mesa
das pessoas.

Livro
Título: Cozinhando sem crueldade
Autor: Ana Maria Curcelli
Editora: Gato Preto
Resumo: O livro mostra que é possível ter uma dieta 100% livre de
ingredientes animais. Oferece receitas de café da manhã e pratos
principais. É considerado um manual do modo de vida vegano.

Título: Libertação Animal
Autor: Peter Singer
Editora: Singer
Resumo: O livro aborda as discussões éticas e o sofrimento animal.

Título: Animal as Persons
Autor: Gary Francione
Editora: Francione
Resumo: O livro é uma coletânea de artigos sobre o abolicionismo do animais.

Título: Vegan Freak
Autor: Bob e Jena Torres
Editora: Torres
Resumo:O livro reúne dicas, conselhos e informações de como torna-se um vegano.


Sites
Endereço: www.guiavegano.com.br
Conteúdo: o site dá suporte ao veganos de todo o país. São publicados
de endereços de restaurantes à artigos abordando novas discussões
sobre o assunto.

Endereço: www.vegansociety.com
Conteúdo: o site conta a história do veganismo e dá suporte aos
praticantes do movimento.